Danilo Santana
Ela atravessou a rua.
Não andava rápido por causa dos seus passos curtos.
Em seu ombro, ao invés de uma simples alça de bolsa, estava pendurada
a correia do estojo de guitarra, uma coisa meio desproporcional à sua
altura...
Em seu caminhar sem pressa, se preocupava apenas em fumar um cigarro e
com o horário. Faltavam apenas cinco minutos para a sessão de massagem
que havia marcado.
Ela dobrou a esquina e parou no meio da calçada. Olhando para cima e
soltando uma exclamação de alívio, leu a seguinte placa:
"clínica de massagens SBCI".
Jogou o resto do cigarro no chão, dando aquela pisada clássica e entrou
no prédio.
Talvez, a ansiedade não lhe permitisse perceber que todos a olhavam com
curiosidade; tal era o interesse que despertava aquela mulher com seus
um metro e cinqüenta centímetros de altura, a carregar o grande estojo
da guitarra ao ombro...
- Boa noite, senhora! - Falou a recepcionista.
- Boa noite. Tenho um horário marcado às vinte e trinta; você pode
confirmar aí?
- Claro que sim, senhora; já está tudo certo. Sente se aí e aguarde a sua
vez.
Que sorte, a senhora é a primeira!
- Obrigada! Espero que não demore.
E assim, aquela mulher dirigiu-se a uma cadeira vazia no canto da sala;
pegou algumas revistas e, com este gesto, quase derrubou um cinzeiro
que estava escondido entre elas.
Isto lhe instigou a fumar mais um cigarro! O que pôs em prática.
Após alguns instantes, fez-se ouvir a voz da recepcionista em
advertência:
- Senhora, aqui dentro é proibido fumar!
- Ah, tá!
Que lindo, não?
Se é proibido fumar, pra que este cinzeiro?
Além disto, eu já estou no meio do cigarro né, querida?! Você não vai querer que eu
vá até lá fora só pra jogar esse toquinho longe das suas narinas
sensíveis!?
- Não, senhora.
Me desculpe, mas é que o Dr. Carlos não gostará nem um pouco
disto!
- Minha Lindinha... já estou acabando; acalme-se! - Falou a mulher, pensando:
"Recepcionista chata pra porra!"
Quando ela foi chamada para a sua consulta, estava concentrada numa das
revistas; uma "Contigo" de 1500, lendo a matéria sobre um fim-de-semana
do casal Alexandre Pires e Carla Perez!
- Senhora, é a sua vez. - repetiu a recepcionista com a mão em seu
ombro.
Ela tomou um susto ao perder a concentração e voltar ao consultório,
com aquela figura a despertá-la do prazeroso transe alienante.
Sem graça, a recepcionista desculpou-se:
- É que a senhora estava viajando na revista...
Então, vamos?
- Vamos sim. Posso levar o meu case? Não gosto de me separar da minha
guitarra.
- Pode sim. Acho que não irá atrapalhar!
Assim, seguiram por um corredor meio sinistro; longo, escuro e
entremeado por várias portas... coisa um tanto macabra.
- É aqui, senhora. - Falou a recepcionista, Parando na penúltima
porta. - Entre e fique à vontade.
Só não pode fumar, ok?
- Eu já sei, lindinha; não precisa me advertir outra vez.
A mulher entrou na sala; um pequeno cubículo envolto na penumbra e,
exatamente como os estúdios que freqüentava, com forro de isolamento
acústico nas paredes; o que a fez sentir-se muito à vontade.
Colocou o seu case apoiado numa parede ao lado da porta por onde acabara
de entrar e dirigiu-se à única maca existente, no centro da sala.
Então, ouviu a voz da recepcionista:
- Senhora, pode tirar a roupa no trocador, há um roupão lá.
- Ok, obrigada.
Entrou no trocador e riu muito ao colocar o roupão; até porque, para
ela, aquilo era literalmente um roupão!
Mas, enfim! Estava acostumada a isto! Não deu muita importância ao fato
e foi acomodar-se na maca; aguardando o terapeuta.
Passados cinco minutos, entra o Dr. Carlos:
- Boa noite, senhora; como vai?
A voz era agradável mas, não condizia com a cara feia que logo fez ao
perceber o aroma de fumo no ambiente.
A mulher respondeu-lhe simpaticamente mas também percebeu que algo não
agradava àquele pobre mortal... e logo soube o que era:
- A senhora fuma, não é?
- Sim, eu fumo.
- Percebi quando entrei.
- Certo! - respondeu a mulher, pensando: "Tá aí mais um preconceituoso
da milícia anti fumo... que saco!"
- Que tipo de massagem a senhora quer?
- Não sei. O terapeuta aqui é você... - respondeu já meio irritada.
- Que acha de uma massagem sensual, nêga... desculpe, quero dizer,
senhora? - respondeu o Dr. Carlos com voz que nada insinuava,
complementando:
- Aqui não fazemos este tipo de coisa mas...
A mulher, deitada de costas na maca, respondeu:
- Olha, começa a fazer com que os meus músculos relaxem e vamos ver onde
isto vai dar, ok?
- Demorou! Quero dizer... certo. A senhora vai gostar!
Delííícia! Vai ver!
- Ah, tá! - falou ela, meio arrependida de se ter irritado com a careta
que ele fez por causa do cigarro e gostando da coisa...
Pouco depois, o terapeuta aproximou-se da maca e começou a deslizar as
mãos ao longo das costas da pequena mulher. Então, com um longo suspiro,
interrompeu o procedimento e, pigarreando, disse-lhe com ar meio
aborrecido:
- Senhora, me desculpe... tenho que ir ali! - foi andando em direção à
porta, parando no meio do caminho para fazer um comentário sobre o case
da guitarra:
- Nossa! Uma Gibson?!!
A senhora é roqueira, né? Também curto rock e até que toco bem pra
caralho, sabe?!
O que pega é que não sei escrever... quer dizer, não sou bom letrista,
saca?!
Mas, sou muito bom no que faço e... que pena que a senhora fuma... não
funciono bem com quem fuma, entende? Mas, vou fazer uma exceção no seu
caso!
Ela, lá no centro da sala, percebia que ele ganhava tempo e
desconversava... intrigada, com um sorrisinho malicioso no canto dos
lábios, aguardou que ele saísse sem dar corda para o papo musical e
egocêntrico. Chateada, confirmava o preconceito do cara... que saco
este troço!
Assim que ele saiu, ela passou a analisar o ovo em que se encontrava.
Uma pequena sala acústica, sem janelas, pouco iluminada, com
um armário em um dos cantos e a cortina do trocador; sorriu
maliciosamente outra vez.
Detivera-se alguns minutos no exame daquele reduzido e macabro espaço
mas, não esquecera da retirada do massagista...
Teria sido o cheiro do fumo impregnado no seu corpo?
Passou então a cheirar-se e, realmente, suas mãos exalavam aquele aroma
que lhe parecia tão agradável e que, ultimamente vinha incomodando por
demais as narinas hiper sensíveis dos chatos! Quanta frescura e
preconceito! Isto lhe dava nos nervos e, afinal, tinha ido àquele lugar
para relaxar...
Quem sabe fosse simples frescura do cara ou... bem, talvez fosse um
destes que têm fobia de mulher, né? Vai saber!?
Deu um risinho baixo, cheio de malícia, enquanto pensava nisto e
aguardava o Dr. Carlos... este era o nome dele, não era?...
O tédio começou a irrita-la ainda mais e, de repente, um brilho maldoso
reluziu em seu olhar...
Fixou os olhos no case da sua guitarra e, sorrindo meio de lado ainda,
deu uma mordidinha no lábio inferior...
Dez minutos haviam passado desde a saída do massagista e eis que a porta
se abre, o Dr. Carlos dá alguns passos e...
Fica surpreso ao olhar para a sua frente e não ver ninguém!
- Cadê a paciente?
Deu uma olhada para o trocador mas, a cortina aberta o convenceu
imediatamente de que a mulher não se encontrava lá. Continuou a
vasculhar com o olhar o pequeno cubículo e nada viu além do estojo da
guitarra, aberto, no chão.
- O que está acontecendo? - se perguntou, sem entender nada!
Neste momento, escutou o barulho da porta a ser fechada às suas costas.
- Oi, lindinho! Como vai? Demorou um monte!
Com o susto, ele deu um pulo, virando-se na direção da porta.
- Você, além de fumante, está doida?
Não estou pra...
Arregalou os olhos ao dar de cara com aquele quadro que se assemelhava a
uma cena de filme de terror!
Envolta em um roupão que lhe parecia gigantesco, um olhar luminoso e o
sorrisinho de escárnio, com aquela coisa nas mãos, estava a pequena
mulher a lhe falar pausadamente:
- O que houve, lindinho? Está assustado com o meu brinquedinho?
- O que... o que... o que você vai fazer com isto?
- Hummmm... não sei! Talvez eu apenas corte aquela parte inútil do seu
corpo... que acha?
- Não! Não... não... não brinque com isto! É... é... é perigoso!
- Perigoso pra quem? - disse ela a rir baixinho e continuou:
Tá falando alto por que?
Tá com medo?
Ah, lindinho! Tsc... tsc... tsc se esqueceu que a sala tem isolamento
acústico? Posso ligar essa belezinha aqui que ninguém vai ouvir; o meu
brinquedinho precioso... a minha Gibson, né? - disse a mulher, sorrindo
amavelmente para ele.
- Senhora... minha senhora, por favor, guarde isto!
- Como? Guardar?
Ainda não se ouviu uma única nota do concerto que desejo lhe
apresentar... não seja indelicado!
A brincadeira ainda nem começou, bonitinho! Eu nem brinquei ainda... -
e, assim falando, puxou um cordãozinho para acionar o motor da reluzente
e dissonante serra elétrica que, apesar de pequena, era muito
assustadora! Especialmente para o tenso massagista que começava a
esverdear e chorar...
Paralisado, o Dr. Carlos não teve reação à aproximação da mulher. Suas
pernas não respondiam aos seus comandos, apenas tremiam ao som
ensurdecedor da pequena serra!
- Ué... você tá com medo, ou é impressão minha?
- Senho... senhora, des... des... desliga isto, por favor!!
- Toda vez que ligo esta gracinha, alguém canta! O chato é que cantam
sempre a mesma letra... que falta de originalidade!
Quer dizer que eu lhe incomodo por conta do cigarro?
Hummmm... que interessante!
O fresco aí não massageia fumantes, né?!
Não gosto disto, sabe?
Fumar não é crime...
Dizia isto enquanto sorria e se aproximava cada vez mais dele.
Nos seus olhos, aquele brilho da vingança!
Ele apenas alternava o olhar entre a mulher e a serra, com medo.
Que olhar tenebroso ela tinha, que aproximação aterrorizante!
- Queridinho, vou lhe dar o benefício da escolha... que pedacinho quer
que eu corte primeiro?
Que acha de começarmos por este seu... seu... esta coisa inútil que lhe
faz sentir-se macho?! - e gargalhou assustadoramente!
Já sei! Deve ser porque fumo cigarros mentolados! O lindo aí teve uma
brochada mental!!
E então? Começamos pelo seu pintinho ou pela sua cabeça??
- Minha senho, senho, senho, senhora, nã, nã, nã, não brinque com, com,
com isto!
Girando a pequena serra no ar, ela debochou:
- Uau!!! O maricas tá com medo, não é?!
Assim é sempre mais divertido!!
No auge do seu pavor, o homem, sem pensar, correu em direção à porta
mas, o seu cálculo...
Ele não contava com a agilidade da mulher que, em ato reflexo,
cortou-lhe o caminho e o corpo ao meio!
- Putz! Ôh, lindinho... por que você se precipitou? Não deu nem pra
brincar...
Eu já havia decidido; era pra acertar lá... mas, você forçou a barra!
Que pena... foi tão instantâneo que nem deu pra você sentir dor...
Não brinco mais, viu?!
Olhando para as duas metades do corpo do massagista, no meio daquela
grande poça de sangue, com ar um tanto frustrado, lhe ocorreu completar
a brincadeira retirando a cabeça do homem. Pôs a serra outra vez a
funcionar!
Assim que a retirou, levantou-a no ar, pelos cabelos, beijou-lhe a boca
entreaberta... a última expressão daquele coitado.
Em seguida, ajeitou cuidadosamente a linda cabeça sobre a maca; limpou a
lâmina serrilhada e as mãos no roupão; acomodou o seu precioso
brinquedinho no case para guitarras e, saindo, fechou suavemente a
porta atrás de si.
Que agradável lhe pareceu o silêncio que se fez após desligar a
máquina! O silêncio final!
Como sentiu prazer no aroma que impregnou o bem cuidado ar do cubículo,
enquanto recolocava suas roupas!
Ainda voltou a abrir a porta, apenas para dizer à inerte cabeça:
- Durma com os anjos, lindinho! Dizem que eles não têm sexo...
Ao passar pela recepção, pagou pela massagem, respondeu à pergunta da
recepcionista com um:
- Sim! Foi muito bom, estou satisfeitíssima!
Ao que a moça respondeu:
- Ah! Todas as nossas pacientes ficam muito satisfeitas com o Dr.
Carlos!
Perdoe-o as restrições que faz ao cigarro... ele não consegue vencer o
trauma. É que sua mãe fuma muito, compreende?
- Claro! Resolvemos a questão sem maiores problemas. Acho até que venceu
o trauma...
- Mesmo? Que bom!
E a pequena mulher tinha no rosto uma expressão que misturava algo de
engraçado com algo de maldoso...
Quando saiu da clínica, respirou fundo o ar frio das ruas, acendeu um
cigarro e seguiu andando por onde veio... imaginava quanto tempo a
recepcionista tonta levaria para sentir o cheiro do cigarro que deixou
aceso, preso àquela linda boca imóvel!?
Sorrindo, jogou um beijo na direção da placa da clínica e retomou o seu
caminho.
De repente, exclamou:
- Puta merda! Fui ao massagista e não recebi massagem nenhuma!
Fim
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